Blog do Tancredo Junior

Maio 5, 2008

Baixo QI ou boicote, meu rei?

Arquivado em: Artigo — tancredojr @ 9:06 pm
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Baixo QI ou boicote, meu rei?

 Por Tancredo Junior

Depois dos cursos de direito e pedagogia, agora o Ministério da Educação decidiu supervisionar 17 cursos de medicina, todos com notas abaixo da média no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), que avalia o conhecimento dos alunos, e no IDD (Indicador de Diferença de Desempenho), que compara o desempenho de calouros e formandos e mede o quanto o aluno absorveu de conhecimento na universidade.

De início, o MEC irá apenas notificar os cursos mal classificados - que terão, por sua vez, uma chance de tentar explicar o fracasso no exame -, e logo depois poderá tomar medidas punitivas, dentre elas cortar a oferta de vagas ou proibir que novos vestibulares sejam realizados.

Há duas notícias que sutilmente ecoam dessa avaliação: uma boa e outra péssima. A boa, é que o MEC demonstra que está de olho nas instituições superiores que não se adequam à qualidade de ensino. E a péssima, é que das 17 universidades listadas no ranking das “piores”, quatro são federais. São elas: UFAL (Universidade Federal de Alagoas), UFPA (Universidade Federal do Pará), UFAM (Universidade Federal do Amazonas) e UFBA (Universidade Federal da Bahia). Das quatro federais, a UFBA é uma das mais conceituadas, e detém o privilégio de ter criado o primeiro curso de medicina do país, em 1808.

Para o secretário de Educação Superior do MEC, Ronaldo Mota, “pode ter havido boicote dos estudantes ao exame”. Se houve, foi burrice dos alunos. Simplesmente, jogaram lama em si mesmos e marcaram um gol contra o próprio time. AFinal, é o diploma deles que está em jogo. Tudo bem que o brasileiro tem memória curta, e esse episódio logo será esquecido pela maioria. Mas pode ser que isso cause prejuízo a curto prazo para os recém formados. Quem vai querer contratar um médico formado na UFBA, sabendo que a instituição recebeu o selo “de baixa qualidade acadêmica”?

A explicação mais absurda para o vexame partiu de Antônio Dantas, coordenador do curso de medicina da UFBA. “O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não conseguiria”. Pronto. A celeuma foi criada e o bá-fá-fá eclodiu, principalmente, entre os baianos. Para Dantas, não houve boicote. A culpa é da lerdeza mental, típica de quem é nascido na terrinha, salvo algumas exceções. Em suas palavras, o problema está no “baixo QI (quociente de inteligência) dos baianos”.  E tal lentidão cerebral seria um fator hereditário, facilmente comprovado por quem convive com o pessoal da terra do acarajé e do carnaval.

Se for hereditário, o baixo QI dos baianos não seria constatado apenas nos estudantes da UFBA, mas em todos: alunos, professores, coordenadores de curso e reitores, extensível para os não-acadêmicos, também. É a lógica mais sensata, se partirmos do pressuposto de que o pensamento de Dantas está correto. Ele próprio estaria incluído nessa deficiência, afinal é baiano da gema.

Quem sabe, se houvesse um exame para avaliar o nível intelectual dos docentes da UFBA, incluindo no mesmo balaio de gato o próprio Dantas, não teríamos uma surpresa? O resultado poderia revelar que baixo QI não é uma dádiva exclusiva de estudantes e pessoas comuns, mas de gente que roga para si a sapiciência suprema. Fica registrada essa sugestão para o MEC: fazer um exame nacional para avaliar o conhecimento transmitido por professores de faculdades públicas e privadas. Seria um tira-teima intelectual. Quem é mais burro e tem menos QI? Alunos ou docentes?

Se o conceito 2 atribuído à UFBA no Enade e no IDD revelar, de fato, que houve boicote dos estudantes ao provão, estamos diante de duas prováveis causas: a obrigatoriedade de realizar o exame; e a discordância da maioria dos estudantes em relação às regras de classificação e avaliação das instituições. Conheço várias pessoas que fizeram a prova por pura obrigação, sem o menor compromisso em responder corretamente as questões, colocando em xeque o resultado final do exame, que é justamente a avaliação do conhecimento obtido pelo aluno em sua universidade. No fim, uma boa universidade pode ser execrada por causa da falta de comprometimento de seus alunos.

Para acabar com o boicote, ou mudam-se as regras classificatórias das instituições de ensino ou extingue-se, de uma vez por todas, a obrigatoriedade do exame. Sou a favor da segunda opção. Não significa que eu esteja defendendo as universidades federais, muito menos fazendo apologia ao boicote. Só não gosto de compartilhar desse tipo de obrigação que nos é imposta, passivamente. Somos obrigados a votar, apesar de vivermos em uma democracia. Quem não vota, não pode fazer isso ou aquilo, não pode tirar documentos ou prestar concursos, por exemplo. Quem não faz o Enade não recebe o diploma. Coisas desse tipo, que nos faz parecer uma republiqueta de araque.

Ainda em relação a UFBA, é importante ressaltar que a frase do senhor Antônio Dantas foi infeliz, mas inegavelmente carregada de um sarcasmo incomum. Uma brincadeira que ele quis fazer com aquele jeito “tranqüilo” de ser dos baianos. Além de tocar o berimbau, instrumento típico que dá a cadência das lutas nas rodas de capoeira, o baiano vive e transpira música, arte e cultura, sem falar naquela simpatia e alegria que lhe são peculiares. De lá vieram a inovação do trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, o som contagiante da guitarra de Pepeu Gomes, a “axé music”, que revolocionou o mercado fonográfico nos anos 80, mesmo criticada pelos supostos defensores da boa música brasileira. Me lembro que nos anos 90, quando trabalhava em emissoras de rádio FM na Bahia, eu ficava injuriado com a profusão de música descartável que o pessoal de lá fabricava. Detestava o Luis Caldas e o Ricardo Chaves, e não entendia como eles faziam tanto sucesso nas rádios e programas de TV em todo Brasil.

Mas não é só de axé music que vive a Bahia. Ela nos deu a Tropicália de Gil, Caetano, Gal, Bethânia, Moraes Moreira e dos Novos Baianos. O rock tupiniquim de Raul Seixas. A irreverência de Tom Zé. A bossa nova de João Gilberto. As belas canções na voz firme de Dorival Caimmy. O rock contemporâneo de Pitty. No cinema, o imortal Glauber Rocha deixou sua marca. No direito, destacamos Anísio Teixeira, Gregório de Matos, Conselheiro Saraiva, Luís Gama. Na literatura, Castro Alves, Afrânio Peixoto, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro. A Bahia também exportou diplomatas renomados, tais como Ruy Barbosa, Miguel Calmon, Domingos Borges de Barros. E artistas plásticos, como Calasans Neto e Mário Cravo.

Citamos apenas alguns baianos famosos. Há muitos outros. Pessoas que mudaram o seu tempo e se tornaram referência naquilo que faziam de melhor. Pelo histórico desses ilustres nascidos na Bahia, com certeza o resultado do Enade não tem nada a ver com questão de falta de inteligência. É apenas um deslize, um vacilo cometido por jovens estudantes de uma universidade pública conceituada, que decidem protestar contra as regras do MEC fazendo um boicote ao exame. Com isso, perderam uma boa oportunidade de honrar a tradição dos seus inteligentes conterrâneos. Vão carregar, pro resto da vida, o peso da decisão que tomaram, e serão sempre lembrados como os “alunos de baixo QI da UFBA”.

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Tancredo Junior, 35 anos, baiano de Feira de Santana, casado. Radialista e teólogo, atualmente é aluno do 5º semestre de Jornalismo, na UNIP, e sócio-diretor da empresa de comunicação Publicitarget Comunicação sem Limitees  www.publicitarget.com.br

 

Maio 1, 2008

Deixar o carro em casa: uma tarefa complicada para o paulistano

Arquivado em: Artigo — tancredojr @ 1:47 am
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    Deixar o carro em casa: uma tarefa complicada para o paulistano                                           

                                                                                                                                         

                                                                                                                    Por Tancredo Junior - 30/04/08

 

A preocupação com a mobilidade no trânsito das grandes metrópoles, e consequentemente com a questão ambiental, tem gerado pesquisas e projetos de governos e ONGs do mundo inteiro, com o objetivo de amenizar os transtornos causados pelo péssimo hábito que adquirimos de usar o automóvel no dia-a-dia, em detrimento do transporte público.

De um lado, os motoristas reclamam da lentidão provocada pelo excesso de automóveis nas ruas. Por sua vez, os ambientalistas e especialistas em saúde afirmam que, cada vez mais, aumentam os casos de doenças respiratórias causadas pela poluição oriunda do monóxido de carbono despejado em toneladas, diariamente, nos grandes centros. E os mais afetados são os mais indefesos: idosos e crianças.

O rodízio municipal em São Paulo, por exemplo, foi uma das alternativas encontradas para tentar minimizar os efeitos provocados pelo complexo trânsito na capital paulista, a cidade com a maior frota de veículos do país.

Estima-se que só em São Paulo são emplacados, diariamente, cerca de mil automóveis novos, totalizando mais de 300 mil unidades por ano.

 

A idéia do rodízio ameniza, em parte, a questão do excesso de veículos em tráfego, mas não diminui a poluição por eles causada. É o que aponta um importante estudo publicado em 2006, elaborado pelo Laboratório de Poluição da Universidade de São Paulo (USP), que revela que na capital paulista e em outras grandes cidades do mundo cerca de 80% do ozônio e 40% do material particulado lançado diariamente na atmosfera são provenientes da frota de veículos movidos a diesel. Ou seja, no caso de São Paulo, a poluição mais consistente é provocada pela frota de veículos de grande porte: ônibus e caminhões, movidos a diesel. A solução para amenizar a poluição advinda do combustível a diesel seria investir em transporte público sobre trilhos, no caso metrô e trem.

O estudo aponta, ainda, que quando a poluição em São Paulo fica mais concentrada, os moradores tornam-se alvos fáceis de problemas respiratórios que podem provocar aumento da pressão arterial, ocasionando, frequentemente, casos de óbito (cerca de nove mortes por dia devido à poluição). Isso significa de 5% e 10% do número total de mortes na capital.

 

Uma das alternativas é conscientizar o cidadão a deixar o carro em casa e utilizar os meios de locomoção oferecidos pelo Estado.

No ano passado, o “World Car Free Day” (Dia Mundial Sem Carro), evento internacional realizado com a intenção de convidar os motoristas a deixarem seus carros em casa pelo menos por um dia foi o tema de uma pesquisa do Ibope, que ouviu a opinião dos paulistanos sobre o hábito de usar o carro frequentemente.

O objetivo da pesquisa era medir a adesão ao movimento, além de mensurar o nível de conscientização a respeito da questão ambiental.

 

Do total de entrevistados pelo Ibope, 53% eram mulheres e 47% homens, dos quais 44% possuiam o ensino médio, e 10% o nível superior.

A pesquisa revela que a maioria dos paulistanos (58%) não tem carro em casa, e que 42% têm carro.

O percentual de pessoas que afirmam utilizar o automóvel todos os dias/quase todos os dias soma 22%, e quem mais usa está na zona oeste: 32%.

 

Sobre o “World Car Free Day”, apenas 18% citam conhecer esse dia; 9% citaram outras opções relacionadas ao Dia Mundial Sem Carro. Segundo o Ibope, a classe A/B foi a que mais tomou conhecimento da data: 66%, seguido de 49% da C e 39% da D/E. Para os entrevistados, a avaliação do dia mundial sem carro foi considerado “Ótimo”, para 31%, e “Bom”, para 38%.

Em resposta à pergunta “Deixaria de usar o carro caso houvesse uma boa alternativa de transporte?”, 47% responderam “com certeza deixaria”, e 23% “provavelmente deixaria”. Apenas 4% opinaram “dificilmente deixaria” e 25% “não deixaria de usar”. Esses dados revelam que cerca de 70% dos paulistanos estariam dispostos a deixar o carro na garagem e utilizar o transporte público. Ou seja, a pesquisa aponta que há 1,2 milhões de pessoas (15% dos paulistanos) com potencial de mudança de hábito em relação ao uso constante do automóvel.

Isso já é um começo. Cabe, agora, aos governantes, cumprir a sua parte: promover políticas eficazes de incentivo ao uso de transporte público, antes, é claro, investindo em qualidade e eficiência.

Só assim, a atitude de deixar o carro em casa seria mais que uma obrigação. Seria um prazer, e não uma tarefa complicada.                                                                          

 

Abril 8, 2008

A farra do carro zero

Arquivado em: Crônica — tancredojr @ 1:33 am
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CRÔNICA DO TAN                                                                                07/04/08 

                                                   A farra do carro zero

                                                                                 Por Tancredo Junior

 

Um amigo meu me contou que resolveu comprar um carro novo popular. Reservou o equivalente a 20% do valor do automóvel para dar de entrada e amortecer no financiamento. Para sua surpresa, o vendedor lhe convenceu a comprar um modelo mais completo, em 99 prestações, sem entrada, com seguro e IPVA já inclusos. E o dinheiro da entrada? “Coloquei um som de primeira, rodas de liga leve aro 17, vidros escuros e ainda sobrou um troco pra passar o feriadão na baixada com a família”, disse ele, eufórico com o negócio que fez.

Na verdade, ele não comprou simplesmente um carro, comprou um e vai pagar dois. Assumiu uma dívida que vai lhe custar quase o dobro do valor do bem adquirido, só de juros, além de consumir mais da metade da renda familiar todo santo mês. Essa conta ele se esqueceu de fazer.

 

 

Nunca se vendeu tanto carro no Brasil

 

O Brasil vive o seu melhor momento na história da indústria automobilística. As montadoras projetam pesados investimentos na ampliação das fábricas para atender a demanda cada vez mais crescente. Nunca se vendeu tantos automóveis no País. Só na cidade de São Paulo, são emplacados, diariamente, cerca de mil novos carros. Fazendo-se uma conta bem simples, podemos chegar a mais de 26 mil automóveis por mês, ou seja, 312 mil por ano. A capital paulista está abarrotada de veículos, e até mesmo o rodízio municipal já não é suficiente para por em ordem o lento e estressante anda-e-pára.

 

Não há especialista em planejamento de trânsito que consiga achar uma solução eficiente pra tanto carro nas ruas da cidade. A CET que o diga. Tenta, em vão, criar rotas alternativas e minimizar os recordes sucessivos de congestionamentos diários que antes tinham horários certos para acontecer, mas que agora ocorrem a todos os momentos, imprevisíveis.

 

“A culpa é do financiamento fácil”, dizem os mais ortodoxos. Ao comentar sobre a situação caótica do trânsito em São Paulo, um experiente jornalista expressou sua opinião, em rede aberta de TV, saindo-se com uma máxima do tipo “hoje, com qualquer cinqüenta merréis por mês, um cidadão compra um carro zero, provocando esse congestionamento infernal que estamos vendo”.

A verdade é que o brasileiro é apaixonado por carro, e com tanta facilidade ao seu dispor, quem tem uma renda mínima comprovada não vai pensar duas vezes para adquirir o seu “pois é”. Perguntem a qualquer indivíduo quais são sonhos e ele vai responder “ter minha casinha e meu carrinho”.

 

 

Além da questão do financiamento fácil, existe o problema do trânsito, cada dia ainda mais lento e insuportável.

 

Uma das opções sugeridas pelo pessoal da equipe econômica do Lula para conter esse boom nas vendas seria limitar o número de parcelas do financiamento, em no máximo 36 meses.

A indústria, logo de cara, não gostou da idéia. “Noventa e nove prestações é muito”, disse o ministro Mantega, que ameaçou colocar um limite na farra do carro zero. Só ameaçou, depois disse que não disse isso, e no fim ficou assim mesmo. Impossível impor limites quando a economia está aquecida e gerando renda.

Os comerciais no rádio e na televisão incitam o consumidor. Os anúncios com apelo gráfico nos principais jornais e revistas não deixam por menos: “compre seu carro zero em até 99 prestações sem entrada!”. É tentador. E perigoso, também.

O perigo está na qualidade das concessões desses créditos. O presidente Lula demonstrou essa preocupação. Talvez a equipe econômica do governo esteja temerosa que aconteça aqui o que aconteceu lá nos EUA, com o financiamento indiscriminado dos imóveis, que resultou na quebra de dezenas de bancos, obrigando o Federal Reserve a injetar bilhões de dólares na economia para evitar um colapso no sistema financeiro. Será?

Deixar o carro em casa e usar o “péssimo” transporte público. Quem se habilita?

 

“O negócio é deixar o carro em casa e andar de ônibus e metrô, só assim o trânsito melhora”. Pelo menos é isso que as autoridades no assunto defendem. E assim o fazem por não utilizarem os meios de transporte público que a maioria da população faz uso no dia-a-dia. Gostaria de ver o Kassab e sua equipe de secretários pegando os trens de subúrbio lotados, ou os ônibus que fazem fila nos corredores logo no início da manhã, parecendo latas de sardinha, com gente pendurada nas portas, num calor insuportável. Sem falar naqueles motoristas mal-humorados, que até parecem estar dirigindo uma carreta de bois, freando bruscamente e dando uns trancos insuportáveis na troca das marchas. O sujeito chega ao trabalho cansado, nervoso, atrasado e ainda leva bronca do patrão.

 

Para convencer as pessoas a deixarem os seus carros na garagem, seria fundamental a criação de políticas públicas de investimentos maciços em transporte de qualidade e eficiente. Mais corredores e ônibus confortáveis e com ar-condicionado seriam medidas interessantes, para começar. Já leram aquela frase impressa na lateral de alguns ônibus, que diz que o transporte público é direito do cidadão e dever do Estado? Então, está na hora de se fazer valer esses direitos e deveres.

 

 

A tentação de comprar um carro zero também me rondou.

 

Confesso que, apesar de relutar muito, ainda permaneço solidário aos usuários do sistema de transporte provido pelo Estado. Até criei uma campanha intitulada “Deixe seu carro em casa e ganhe de presente uma viagem interminável e desconfortável no transporte público”. Já tenho alguns adeptos – bem poucos, eu sei, que aderiram por livre e espontânea necessidade, mesmo.

Mas paciência tem limites. De tanto ser amassado e pisoteado nos buzões dessa Sampa de meu Deus, quase me deixei convencer de que deveria engrossar as fileiras dos neomotorizados. Afinal, que diferença faz um carro a mais disputando espaço com os motoboys em nossas ruas e avenidas?

 

Um processo de tentativa de convencimento começou com os amigos. Uma trama ardilosa para me fazer sair do MSC - Movimento dos Sem-Carro. “Deixa de ser bobo, rapaz! Compra um carro zero, é melhor do que andar apertado”, me alfinetou o líder deles. Até em casa o complô se formou contra mim. Minha mulher soltou esta pérola: “Se eu fosse você, comprava aquele carro dos seus sonhos!”. Como me livrar de tamanha persuasão feminina, oriunda justamente daquela que conhece os meus planos frustrados de ser um piloto de Fórmula Um? Até o meu filho, aficionado por carros, inflou o meu ego: “Já pensou você naquele carrão, pai?! Show de bola! Você merece!”. Pronto. A dúvida fora semeada em meu coração defensor do projeto “deixe o carro em casa”.

A tentação se agigantou quando recebi uma carta do meu banco me informando que eu tinha um crédito já aprovado para financiar um automóvel, qualquer modelo, até mesmo aquele dos meus sonhos! Tudo parecia estar contra mim. Acabaria vencido pelo voto da maioria. O inimigo mortal do financiamento e dos carros nas ruas seria neutralizado!

 

Dois dias depois estava eu, passando em frente a uma concessionária, e lá estava o bendito carrão, todo reluzente, prateado, como se olhasse para mim e me convidasse a fazer um test-drive e o levasse para minha garagem. Resisti-lhe duramente e dei meia volta. Não poderia – pensei com os meus botões – cometer dois erros de uma só vez: entrar em um financiamento de “suaves” noventa e nove prestações, ao mesmo tempo em que passaria a fazer parte do clube dos motoristas estressados de São Paulo. Era contra os meus princípios.

Preferi deixar como estava. Pelo menos, por enquanto. Continuo a acreditar que a melhor solução para minimizar os problemas dos extensos congestionamentos nas grandes cidades é justamente deixar o carro em casa. Pelo menos, até o dia em que eu me cansar de vez e decidir sair do aperto e calor dos ônibus e trens para trafegar em um moderno, confortável e climatizado carango com câmbio automático.

                                                            *****                                                  TFSJ

 

Tancredo Junior, 35 anos, é casado, radialista, teólogo e acadêmico de Jornalismo na UNIP.

 

Link para este texto no Blogspot: http://tancredojr.blogspot.com/2008/04/farra-do-carro-zero.html#links

 

 

 

 

 

 

Fevereiro 26, 2008

Teo…o quê?

Arquivado em: Sem-categoria — tancredojr @ 4:36 am
Dia desses resolvi escrever alguma coisa relacionada à dificuldade que temos de compreensão de diversas palavras, às vezes, até mesmo pela semelhança entre elas. Algumas são proferidas por certos “pregadores e ensinadores” mais bem instruídos do que nós e a maioria dos membros das igrejas - que ficam, coitados, sem entender o significado de vocábulos tão complexos – e que por falta de vontade, ou por simplicidade, não buscam saber o que quer dizer as tais. Então, procurei nas minhas anotações da faculdade, fiz uma busca na minha memória, vasculhei os dicionários e resolvi detalhar, com uma pitada de bom humor, as principais pérolas, todas iniciadas com a letra “t”.
Teologia: tratado de Deus, doutrina que trata das coisas divinas, doutrina da religião cristã, ciência que tem por objeto o dogma e a moral. Provém do latim theo+logia. Palavra muito em voga hoje em dia, é atribuída aos entendidos teólogos, que usam dos conhecimentos da teologia para difundir seus ensinamentos e pensamentos doutrinários acerca de Deus. Hoje é muito fácil aprender a matéria e se tornar um ‘teólogo’. Quem se habilita?
Teopsia: é a suposta aparição súbita de uma divindade. Do grego theos+opsis. Não é o mesmo que a Teofania! Veja, suposta aparição…suposição denota uma hipótese, alegação, dá margem para dúvidas.
Teomancia: suposta adivinhação por inspiração divina. Do grego theomanteia. De novo, a suposição. Tá cheio de gente que abusa dessa prática, confundindo profecia com adivinhação. Olhos abertos. Cuidado!
Teomania: loucura ou mania em que o paciente se julga Deus ou inspirado por Deus. Do grego theomania. Você conhece alguém que tem essa mania? Diferente da megalomania, que é a mania de grandeza, o teomaníaco pensa que é Deus. E olha que tem surgido uns que acham que é Deus. Vê se pode! Eu, hein…
Teodicéia: parte da filosofia, que trata de Deus, de sua existência e de seus atributos. Provém do grego theos+dike. Muitas pessoas pensam que a filosofia descarta a existência de Deus. Na verdade, estuda e busca - não as aparências, mas o sentido, a essência, o princípio das coisas, mergulha fundo no ser humano e na razão de ser das coisas. A filosofia tem vários campos de estudo: a lógica, a ética, a estética, a política e a metafísica (mas isso tudo é assunto pra uma outra oportunidade)! Derivada do grego e latim philosophia, significa ‘amor, amizade, apego à sabedoria; amigo do saber, do conhecimento’ – philo (amizade, amor, apego) + Sophia (sabedoria, conhecimento). Portanto, um filósofo é um amigo de Sofia, amigo da sabedoria! O rei Salomão era amante da sabedoria, um filósofo de mão cheia. Para ele, Deus é a própria sabedoria e quem a encontra descobre o verdadeiro sentido da vida. O livro de Provérbios, de sua autoria, é cheio de filosofia e um verdadeiro chamado ao saber e atribui ao conhecimento valores inestimáveis. Se você se chama Sofia faça jus ao nome!
Teocracia: governo em que o poder é exercido pela classe sacerdotal. Do grego theokratiu. Era assim com o império romano, que conquistou e oprimiu quase todo o mundo na época dos Césares, tudo em nome de Deus. Com a igreja romana os governos eram constituídos sob a égide e controle dos Papas. Uma espécie de teocracia atual é o governo do Irã, formado por religiosos extremistas - os Aiatolás, que apóiam os homens-bomba em nome de Alá.
Teogonia: conjunto de divindades cujo culto constitui o sistema religioso de um povo politeísta; genealogia dos deuses. Do grego theogonia. Dois exemplos de paises politeístas, que cultuam milhares de deuses: Japão e Índia. Na Índia, até rato é adorado como se fora um deus. E olha que dizem que a população mundial de ratos é maior que a humana. Já pensou se essa ratazanada fosse adorada indiscriminadamente? Sobrariam deuses e faltariam adoradores.
Teosofia: doutrina de várias seitas que pretendem achar-se iluminadas pela divindade e intimamente ligadas com ela. Ciência de Deus, iluminismo. Do grego theo+sofia. É o caso de seitas orientais - aquelas denominadas ‘zen’, e do ecumenismo moderno.
Teofania: aparição ou revelação da divindade. Palavra de origem grega: theophania. Antigamente, os judeus criam na teofania, na aparição eventual de Deus. Essa aparição ocorreu no mar da Galiléia, quando Cristo apareceu aos discípulos caminhando por sobre as águas. Foi um espanto, Deus estava passando por eles!Também aconteceu no monte Horebe, quando Moisés viu o fogo ardente que não consumia a sarça. E ainda, com Elias, que sentiu a aparição de Deus na brisa suave. Ou com Saulo de Tarso, a caminho de Damasco, quando Deus lhe apareceu por meio de uma luz muito forte que o deixou cego. Atualmente, até onde eu saiba, a teofania não acontece mais como antigamente. Porque será, já que a Bíblia fala que Deus é o mesmo ontem e hoje e ele não muda? Resposta óbvia: nós é que deixamos de acreditar que Ele quer passar por nós.
Espero que você tenha gostado. Grande abraço!

A soberania de Deus: eleição de Jacó e a rejeição de Esaú

Arquivado em: Sem-categoria — tancredojr @ 4:31 am
Quando o apóstolo Paulo cita a eleição de Jacó, em Romanos 9.11-16, em conformidade com Gênesis 25.23 e Malaquias 3.1-4, tal eleição (ou escolha, como queiram) da parte de Deus para com Jacó tem a ver com bênçãos para a sua vida, não só terrena (materiais), mas bênçãos espirituais: salvação eterna, o Espírito Santo, a promessa de Cristo e o Reino Eterno. Jacó fez parte do povo de Deus, dando seqüência ao plano divino de fazer crescer a nação de Israel (cf. Gn 27.27-29). Tal eleição de Jacó refletiu-se no advento do Messias, pois Cristo veio da linhagem de Jacó - da tribo de Judá, filho de Jacó (cf. Gn 49.8-12).
Há, porém, um fato inusitado: Esaú também quis ser abençoado por seu pai, Isaque, que negou-lhe qualquer mérito ou direito a bênção da primogenitura que fora destinada ao seu irmão (cf. Gn 27.36-41). Por ser rejeitado, Esaú viveria uma vida de lutas e dificuldades, vivendo em lugares inférteis (Gn 27.39).
A eleição de Jacó e a rejeição de Esaú criaram problemas de empatia entre as duas nações co-irmãs por gerações. Os edomitas viviam em constante conflito com Israel, descendentes de Jacó. Rejeitaram o pedido de Moisés para que Israel passasse por sua terra (cf. Nm 20. 14-20), opuseram-se ao rei Saul (cf. I Sm 14. 47), combateram contra Davi (cf. I Rs 11.14-17), foram contra Salomão (cf. I Rs 11.14-25) e contra Josafá (cf. 2 Cr 20. 22), e também se rebelaram contra Jeorão (cf. 2 Cr 21.8).Mais tarde, Edom, a terra dos edomitas, os descendentes diretos de Esaú, foi invadida por Nabucodonosor em 586 a. C e depois pelos nebateus (cf. Jr 25.9, 21 e Ml 1.1-4).A linhagem de Esaú, dos edomitas e seus descendentes foi destruída completamente (cf. Ob 10-21).
Hoje, portanto, não resta um sobrevivente sequer dos outrora poderosos edomitas (cf. Is 34.5-17).Para confirmar o extermínio da linhagem de Esaú, basta ler Obadias 18: “A casa de Jacó será fogo, e a casa de José chama; a casa de Esaú palha, e aqueles se acenderão contra eles, e os consumirão. Não haverá sobreviventes da casa de Esaú. O Senhor o disse”.

Pratique o que você prega

Arquivado em: Sem-categoria — tancredojr @ 4:29 am
Vivemos atualmente uma crise de identidade. Crise que se espalhou pelos meandros do poder público e se instalou na sociedade. É a ausência de caráter e de bom testemunho que se nota em muitas pessoas, principalmente líderes políticos e até religiosos, conceituados, os quais já não estão imunes ao respingar de lama que é lançada quase que todos os dias, através de denúncias e mais denúncias. Diante de tanta deterioração moral, aumenta a nossa responsabilidade, como pessoas tementes a Deus, de ter uma conduta irrepreensível no trato das coisas comuns e espirituais. Muitos, infelizmente, pregam o que não vivem e não vivem o que pregam.Lembro-me de uma canção gravada por Barry White, intitulada “Practice what you preach”, que em português quer dizer “Pratique o que você prega”. Muito sugestiva a letra. Até parece que ele estava desabafando quando compôs essa música, ou quem sabe vivendo uma situação em que alguém se mostrava ser uma pessoa boazinha, mas na verdade era uma fingida, levando uma vida dúbia.E conosco, como tem sido a nossa conduta? Vivemos com duas facetas, uma boa e outra má, como se fôssemos o “Duas-caras”, o vilão mortal do Batman?
O apóstolo Paulo já convivia em sua época com pessoas que praticavam a dubiedade ou duplicidade de vida – gosto mais do termo “desvio de conduta ou caráter”. Pedro pregava a circuncisão e proibia os judeus que se convertiam de assentar e comer com os gentios, mas ele mesmo se reunia com eles e banqueteava, acompanhado de outros judeus dissimulados! (Gl 2.11-13). Tal fato, presenciado por Paulo, causou-lhe indignação, a ponto de repreendê-lo na frente de todos, dizendo: “Mas, quando vi que não andavam corretamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro, na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (Gl 2.14). Pedro pregava uma coisa e praticava outra, dissimuladamente! Que péssimo exemplo, sendo ele um líder renomado da igreja local.

Mais adiante, na carta ao seu conservo Tito, Paulo admoesta os crentes de Creta que vivam uma vida exemplar, de testemunho pleno, pois ele ouvia falar que “…os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos” (Tt 1.12b) ao que Paulo afirma: “Este testemunho é exato. Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé” (Tt 1.13). Observaram a gravidade dos fatos? Os membros daquela igreja simplesmente não davam exemplo de vida cristã – só na congregação, pois fora dela eram de conduta repreensível.Importante nos é praticar o que pregamos (se é que pregamos o verdadeiro evangelho), e pregar aquilo que praticamos e vivemos (se realmente vivemos uma vida exemplar).Portanto, lembre-se: pratique o que você prega!Que o Senhor nos ajude a viver uma vida de santidade e comunhão com Ele, para que possamos ser o sal da Terra e luz que alumia na escuridão.

Menina de ouro

Arquivado em: Sem-categoria — tancredojr @ 4:22 am
O filme Menina de Ouro (Million Dollar Baby, EUA, 2004) conta a história de Maggie Fitzgerard, uma jovem que sonhava em se tornar uma grande lutadora de boxe e conquistar o título mundial da categoria. Interpretada pela atriz Hilary Swank, Maggie vai a busca de seus objetivos. Apesar de ser considerada “velha” pra ser lutadora de boxe, treina incansavelmente na academia de um veterano treinador, Frankie Dunn (Clint Eastwood), que reluta em aceitar treina-la, o que acaba fazendo, incentivado por seu amigo e assistente, Eddie (Morgan Freeman). Surgem as primeiras lutas, e Maggie vence uma após a outra, sempre no primeiro round! Imbatível. Viaja pelo mundo, conquista vários títulos, ganha dinheiro, consegue comprar uma casa para sua mãe. O sucesso é esplendoroso! Chega o dia da tão sonhada luta pelo título mundial. E é nessa luta que a vida de Maggie vai mudar de repente. Ao dar as costas à sua adversária, quando ganhava a luta, ela recebe um golpe certeiro, que a leva à lona. Ao cair, acidentalmente bate com o pescoço no banquinho que é colocado para descanso dos boxeadores nos intervalos da luta. Na queda, fratura o pescoço, lesando a coluna cervical completamente. A partir daí, Maggie perde todos os movimentos do corpo, passando dias infindáveis em um leito de hospital em estado vegetativo. Lastimável. Seu sofrimento é insuportável. Sua família a abandonou. Apenas o treinador e o assistente visitavam-na no hospital. Diante dessa situação, ela decide acabar com a própria vida, mordendo a língua várias vezes, para se sufocar com o próprio sangue. Decidida a acabar com seu sofrimento, ela pede ao amigo e treinador que desligue os aparelhos que lhe fornecem oxigênio e que a mantém viva. Hesitante, ele não concorda. Criara um sentimento de carinho por ela, dando-lhe o sugestivo codinome de “Mocushle” (minha querida).Até quando não agüenta mais vê-la sofrer. Injeta uma droga que provocaria a sua parada respiratória. É o fim. Maggie morre. Sozinha, abandonada pela família, e sem realizar o sonho de ser campeã mundial.
A promissora boxeadora conquistou a fama, o sucesso, a glória, dinheiro, fãs. Gostava de ouvir a multidão gritar seu nome euforicamente. Era tudo o que ela queria. Viveu a vida intensamente, como se o amanhã não importasse. Mas se esqueceu que há uma vida gloriosa e muito mais gratificante a ser conquistada. A vida eterna. A vida com Cristo, no paraíso, onde as ruas são de ouro, os muros são de jaspe e os rios de cristal. A menina de ouro perdeu o brilho da sua vida. Para sempre. A eternidade com Cristo está destinada para todos os que o amam e preservam em seus corações os Seus ensinamentos, as Suas palavras, e que preferem abdicar dos muitos prazeres deste mundo. Mas para quem rejeita a Cristo, valorizando mais as coisas terrenas, infelizmente terá como destino uma eternidade de sofrimento.E você, pode se ver na história dessa jovem lutadora, apenas preocupado em realizar seus sonhos?Como está sua vida com Deus, sua comunhão com Ele? Se fatalmente algo suceder a sua vida, estaria você preparado para se encontrar com o Pai? Até que ponto a busca desenfreada pelo sucesso profissional e realização pessoal pode nos afastar de Deus? Será que vale mesmo a pena corrermos atrás dos nossos sonhos sem pensarmos na vida após a morte, esquecendo-nos que temos uma vida espiritual que prestará contas das ações tomadas aqui? A Bíblia questiona sobre a validade do homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma. O próprio Cristo nos advertiu que devemos buscar em primeiro lugar as coisas que são de Deus, pois as demais nos serão acrescentadas. A nossa vida é perene, passageira. É como um vento que passa e pouco depois já não existe mais. Somos um sopro de vida, e esse fôlego pode se esvair de repente. Provérbios 16.2 diz: “Todos os caminhos do homem são inocentes aos seus olhos, mas o Senhor pesa os motivos.” Pense nisso.

Outubro 6, 2007

Meio ambiente: Incoerência entre palavra e ações

Arquivado em: Sem-categoria — tancredojr @ 3:04 am

Vi, tempos atrás, um anúncio da prefeitura da cidade de São Paulo veiculado em vários ônibus, chamando a atenção dos cidadãos sobre a qualidade do ar que respiramos. O texto enfatizava o nosso dever de regular os motores dos nossos carros, para diminuir a poluição do ar causada pelo monóxido de carbono e outros agentes químicos lançados das descargas dos milhões de veículos que congestionam o nosso pesado trânsito diariamente.
Até aí tudo bem, a campanha era – e é válida, pois apregoa o bem-estar da população e orienta os motoristas menos avisados a fazerem um check-up no motor, vez em quando, não só para controlar a emissão de gases poluentes, mas também corrigir até mesmo o consumo excessivo de combustível.

O que me chamou a atenção, na verdade, foi a incoerência do anúncio, afinal não faz sentido a prefeitura convocar os cidadãos para colaborar no combate à poluição provocada por seus veículos, sendo que ela própria, que deveria dar o exemplo, têm sido – salvo erro de interpretação deste humilde cronista – talvez, a maior responsável e incentivadora da poluição. Explico: acontece que a prefeitura tem colocado de “escanteio”, desde o governo Marta Suplicy, toda a frota de ônibus elétricos da cidade. E tal prática continuou com o ex-prefeito José Serra e está sendo perpetuada e avalizada pelo atual prefeito, Gilberto Kassab.
Ora, os Trolebus, como são conhecidos os ônibus elétricos, não poluem, fazem bem menos barulho, não dão aqueles desconfortáveis trancos como os convencionais (pois não possuem troca de marchas) e tem custo operacional entre 30% e 40% menores que os beberrões movidos a combustível fóssil. Então me diga, quem souber, por que cargas d’água, ao invés de manter os Trolebus circulando ou até mesmo ampliar a frota desses veículos, a prefeitura resolveu tirá-los de circulação, colocando-os em vários pátios e garagens, ao relento, enferrujando?
Além de eliminá-los sorrateiramente do sistema de transporte público, a prefeitura financiou e permitiu que os consórcios de empresas colocassem em circulação milhares de novos ônibus, e todos movidos a diesel. A única exigência feita pelo erário é que os veículos sejam novos e promete trocá-los a cada dez anos. Ah, bom. Tá certo, então. Vamos andar em veículos novos e cada vez com menos assentos – já reparou como é difícil andar nesses novos modelos, com aqueles degraus de meter medo nos velhinhos?–, desconfortáveis e barulhentos à bessa. Atualmente, uma quantidade ínfima dos ônibus elétricos, que se tornaram um dos símbolos da cidade, está em circulação em alguns trechos, limitada ao centro.

Segundo dados de um estudo realizado pelo Laboratório de Poluição, da Universidade de São Paulo (USP) divulgado no ano passado, tanto na capital paulista quanto em outras grandes cidades do mundo cerca de 80% do ozônio e 40% do material particulado lançado diariamente na atmosfera são provenientes da frota de veículos movidos a diesel.

Ainda segundo o estudo, nos dias em que a poluição é mais concentrada os moradores da cidade de São Paulo ficam expostos a “um quadro clínico de inflamação pulmonar” – traduzindo: as artérias podem sofrer um leve fechamento e ocasionar aumento da pressão arterial.

Segundo o pesquisador e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e chefe do Laboratório de Poluição, Paulo Hilário Nascimento Saldiva, morrem, em São Paulo, nove pessoas por dia, todas vítimas da poluição. Esse número representa cerca de 5% e 10% do número total de mortes na capital. Uma estatística alarmante.

Por que os governantes fingem que se preocupam com o meio ambiente e com a saúde pública, quando na verdade não dão a mínima para o fato de que a poluição nas grandes cidades é a principal causa de problemas respiratórios em crianças e idosos?

Será que eles não sabem que os níveis toleráveis pela OMS para a qualidade do ar seja de 20 micro gramas por m3 de material inalável, enquanto que em São Paulo o volume é de 40 micro gramas por m3?

Talvez seja porque o lobby da indústria automotiva e do petróleo fale mais alto, pois não justifica acabar com um sistema de transporte movido a energia elétrica, mais barato e não-poluente, optando por continuar abarrotando o trânsito de ônibus movidos a diesel, fumarentos e barulhentos.

Um projeto de implementação de uma frota movida a gás não saiu do papel. Hoje, em São Paulo, há poucos ônibus movidos a gás natural ou híbrido em circulação, em comparação com os mais de 15.000 movidos a diesel. Afinal, se a prefeitura jogou no lixo e fez de sucata centenas de Trolebus, dificilmente ampliará o número de ônibus ecologicamente corretos, muito menos no atual momento, com esse impasse envolvendo Brasil e Bolívia. A desculpa será bem apropriada: “não temos garantias de abastecimento”.

Enquanto isso vamos vivendo, respirando um ar carregado de uma combinação de vários gases tóxicos. O jeito é esperar pra ver se alguma solução mais coerente que os discursos e promessas políticas seja adotada. E torçamos, com muita fé, pra que alguma coisa seja feita, senão nas próximas décadas nossos filhos e netos sentirão, com certeza, o quanto é insuportável viver em uma cidade que tem o desprazer de fazer parte da elite de metrópoles com os ares mais poluídos do mundo. Afinal, tem administrador público que acha que desenvolvimento é isso mesmo, envolve poluição, não tem jeito.

Já acabaram com o Tietê e seus afluentes, agora é a vez do nosso ar.

Tancredo Junior,

Radialista, teólogo e acadêmico de Jornalismo na UNIP

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