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Educação de qualidade para quem precisa

In Artigo on janeiro 10, 2011 by Tancredo Jr

Não é fato recente que ouvimos falar sobre a má qualidade do ensino público e privado no Brasil. Desde a pré-escola, passando pelo ensino fundamental – que deveria ter a responsabilidade de formar os pequenos alunos com bases sólidas –, têm-se percebido uma má vontade dos poderes públicos em promover uma educação de qualidade, seja ela oferecida pelo Estado ou provida pelas instituições particulares, que assumiram para si – de forma meio capenga – o legado de bastiões da formação intelectual do brasileiro.

Em se tratando de uma nação formada em sua essência na desigualdade e discriminação social velada, bem poucas famílias tem condições ou o privilégio de colocar seus filhos em uma boa escola paga, criando, assim, uma casta de “nobres filhos de papai”, que podem pagar uma boa escola, e outra de “pobres filhos sem pai”, aqueles que estão fadados ao fracasso intelectual por não possuírem condições de estudar em uma boa escola.

Essa precariedade educacional do País, que parece ser generalizada e já começa na base – solapada por má formação dos professores e seus salários baixíssimos – sugere, óbviamente, que o topo tende a desmoronar, lentamente, sem fazer ruído ou alarde, passando despercebido por aqueles que deveriam cuidar e zelar da intituição mais nobre que uma nação possui: a educação de qualidade para todos, gratuita, sem distinção de raça, credo ou condição social e econômica. Afinal, está na Carta Magna, o direito à educação é inegociável.

Tome-se como base e referência desse desnível econômico e social o fato de o próprio ministro da educação, Fernando Haddad, ter seus filhos matriculados em escola particular. É prova tanto do poder econômico no qual ele e sua família estão inseridos, quanto da sua evidente desconfiança na qualidade da educação pública.

Seria injusto, porém, apontá-lo como um Judas. Não só ele, mas a grande monta de políticos assim o faz.

Quem pode e tem juízo, por pior que seja, é melhor ter seus filhos e parentes estudando em escolas particulares do que em escolas públicas.

Tudo se explica facilmente, pelo menos na teoria. Depois do golpe militar de 64, a partir dos anos 70, o Brasil teria deixado de investir na qualidade educacional, por culpa dos governos militares, que se preocupavam mais com a caça aos comunistas do que com o que se ensinava nas escolas públicas.

Essa corrente de pensamento parece embasar-se na comparação com o nível do ensino público nas décadas de 50 e 60, pois quem viveu nesse período afirma que o glamour e a qualidade efetiva da escola pública era um referencial para todas as famílias tradicionais da época.

José Sérgio F. de Carvalho, professor de Filosofia da Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) aborda essa questão em um artigo de sua autoria denominado “A qualidade de ensino vinculada à democratização do acesso à escola”, publicado no site http://www.scielo.br.

Por fim, há inúmeras pesquisas, artigos e trabalhos acadêmicos que tentam decifrar, ao longo dos últimos cinquenta anos, o que realmente deu errado no sistema educacional brasileiro.

Fato é que a má formação, iniciada já na base da pirâmide (a pré-escola e o ensino fundamental), acarretará uma ruptura que só será notada de forma mais clara no topo, ou seja, no ensino superior, culminando com vexames de várias instituições de ensino superior constatado no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), que avalia o conhecimento dos alunos, e no IDD (Indicador de Diferença de Desempenho), que compara o desempenho de calouros e formandos e mede o quanto o aluno absorveu de conhecimento na universidade.

Em sua última edição, esses exames constataram, por exemplo, que a Universidade Federal da Bahia (UFBA), uma das mais tradicionais do país, obteve nota abaixo da média na avaliação do curso de medicina, o primeiro do país, criado em 1808.

Pode não ser nada. Mas se observarmos que do total de 17 universidades avaliadas pelo MEC, quatro são instituições geridas diretamente pelo poder executivo federal, estamos diante de um quadro que aponta para um sistema público de ensino superior que pode estar defasado e carente de reestruturação.

Em 2007, segundo dados do Censo da Educação Superior, o total de alunos que se formaram nas universidades públicas diminuiu 9,5%, e a principal razão dessa queda é a falta de investimentos dos governos federal e estaduais nas instituições que estão sob a sua gestão. Em segundo lugar, o censo aponta o descontentamento dos estudantes em relação à qualidade dos cursos oferecidos.

Sobram, assim, vagas nas universidades particulares, que oferecem cursos com péssima avaliação e poucos professores com mestrados ou doutorados, turmas com o dobro do número de alunos, alta rotatividade provocada pela ampla desistência. No final, essas universidades terão formado profissionais frustrados e sem o menor preparo para o mercado de trabalho.

Diante de tudo isso, cabe a nós, leigos ou doutores, estudantes ou professores, políticos ou cidadãos comuns, a missão de reavaliar se realmente esse é o modelo educacional que queremos manter para as próximas gerações, ou se desejamos uma reformulação completa do sistema que hoje nos é oferecido.

Mas não basta apenas desejar mudanças. É preciso enfatizar os erros já conhecidos e exigir dos legisladores e poderes executivos políticas públicas eficazes e consistentes, que tragam resultados evidentes.

Artigo escrito e postado por Tancredo Junior em 14/06/08 no blog dos alunos de Jornalismo da Unip.

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Frivolidades da nossa política

In Crônica, Sem-categoria on novembro 28, 2008 by Tancredo Jr Marcado: , ,

Crônica do Tan               

                            

 

O Brasil está se consolidando como um país sério e democrático. Estamos caminhando para mais um pleito eleitoral, com as eleições mais bem estruturadas de todos os tempos.

Temos tecnologia de ponta, que nos permite saber o resultado das urnas eletrônicas poucas horas depois de encerrada a votação. Mesmo nos redutos mais remotos, lá no Amazonas, ou nos confins do Oiapoque, os dados são enviados por satélite, sem o menor risco de erro ou fraude. Nem o Tio Sam dispõe de tamanha competência no que tange à apuração eleitoral.

Nada mal para um país que completa em 2008 vinte anos de democracia plena. Parece que foi ontem. Eu era um adolescente, iniciando na militância política da UNE em minha cidade quando a Carta Magna foi promulgada, em 1988, trazendo grandes conquistas e direitos que nos haviam sido surrupiados pelos milicos (isso eu sei porque meu pai contava).

 

 

Talvez o Partido dos Trabalhadores se fie naquela máxima: “somos um país de gente que esquece facilmente das coisas”.

 

Nossas instituições estão mais firmes do que nunca. De vez em quando o Executivo, o Legislativo e o Judiciário balançam, mas não caem. Umas rusguinhas aqui, outras ali, e vamos levando. O governo federal edita uma medida provisória, o congresso faz biquinho e tranca a pauta de votações, magistrados acusam a Abin e a PF de grampo telefônico, um juiz (chefe da mais alta Corte do país) libera da cadeia uns banqueiros acusados de fraude no sistema financeiro, e ainda proíbe que a polícia os algeme. Coisinhas bobas, típicas de democracias latino-americanas. Não tem problema. Ainda estamos amadurecendo nossos pilares judiciários. “A jurisprudência no Brasil ainda é recente e precisa se fortalecer”, disse um juiz. Quem um dia vir a depender do judiciário para dirimir suas demandas está perdido!

 

A exceção são alguns casos – poucos, é claro! -, de corrupção em todas as esferas do poder público. O destaque é para o Poder Executivo, campeão da bandalheira institucionalizada.

Mas fazer o quê? Se até mesmo o presidente da República se diz vítima de amigos – e familiares – envolvidos em malandragem envolvendo o desvio de grana pública, imagina o resto. Coitado! A vantagem (ou será desvantagem?) é que ele é sempre o último a saber das coisas, ou pelo menos é isso que ele afirma, que “não sabia de nada”.

 

Mais da metade dos eleitores não se lembra em quem votou nas eleições passadas, imagina se vai lembrar de quem roubou ou deixou de fazê-lo.

 

O PT é o partido da vez. Embalado pela popularidade ascendente do presidente Lula, pretende eleger mais prefeitos e vereadores do que antes. Mas esquece-se que seus dirigentes estiveram envolvidos num dos mais crassos casos de corrupção partidária que se tem notícia. Talvez o Partido dos Trabalhadores se fie naquela máxima: “somos um país de gente que esquece facilmente das coisas”. É verdade. Mais da metade dos eleitores não se lembra em quem votou nas eleições passadas, imagina se vai lembrar de quem roubou ou deixou de fazê-lo. Por exemplo, quem se lembra que o PT não apoiou a aliança partidária que elegeria Tancredo Neves, em 1984, e também não assinou a Constituição de 1988?

São as frivolidades da nossa política.

 

 

O Brasil é um país engraçado, multifacetado politicamente. Um cientista político baiano me disse que somos um eleitorado complexo, sem muita definição ideológica. Votamos no candidato, não no partido. Ele me dá como exemplo a cidade de Salvador. “Os soteropolitanos votam ao mesmo tempo no carlismo, em ACM [o falecido senador] e também votam em Lula para presidente”. Taí. Característica clara de eleitorado com indefinição político-ideológica. Ou seria uma qualidade de eleitorado pluripartidário?

 

Quem se lembra que o PT não apoiou a aliança partidária que elegeria Tancredo Neves, em 1984, e também não assinou a Constituição de 1988?

 

As eleições municipais de 2008 representam um divisor de águas para 2010. A “infidelidade” que o eleitor demonstrou nas urnas, levou a surpresas, algumas nem tanto. Em São Paulo, a maior capital do país e referência política para a composição do cenário na disputa presidencial, esperava-se confirmar a força de Lula em transferir votos para sua pupila Marta Suplicy, o que não aconteceu, de fato. O presidente é bom de voto, mas patinou na tentativa de garantir a prefeitura paulistana. Talvez, agora seja o momento de auto-afirmação da liderança do governador José Serra, que deu um chega-pra-lá em Alckmin (teoricamente seu concorrente no PSDB), e virtualmente sai na frente de Aécio na briga pelo Planalto. O governador costurou a aliança entre tucanos e democratas, demonstrando firmeza e comando da situação e conseguiu o que queria: eleger seu boneco de Olinda, Gilberto Kassab.                                      

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Esta crônica foi originalmente publicada na revista acadêmica Urna de Notícias, do 6º semestre de jornalismo na Universidade Paulista, para o Projeto Integrado de Comunicação (PIC).

Autor: Tancredo Junior

Tancredo Junior, 35 anos. Jornalista, radialista, publicitário e empresário, é sócio da empresa Publicitarget Comunicação.

 

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“Kinky Boots” e suas inter-relações com as teorias da Psicologia do Consumidor

In Artigo on setembro 30, 2008 by Tancredo Jr Marcado: , ,

“Kinky Boots” e suas inter-relações com as teorias da Psicologia do Consumidor

Por Tancredo Junior – 21/09/08 
 
 
 

Quem vê o filme “Kinky Boots” logo de cara o associa com vários fatores que estão relacionados com os conceitos aplicados na disciplina “Psicologia do Consumidor”. Baseado em fatos reais, a idéia central é mostrar que a globalização moderna – ocorrida com mais veemência a partir do início do século XX, tem características particulares aplicáveis no dia-a-dia de consumidores e produtores.

Essa inter-relação é clara e evidente quando aborda questões até então pouco percebidas, principalmente, por empresas familiares, que há décadas se dedicavam a fabricar um único tipo de produto, sem a preocupação de diversificar seu portfólio. O filme tenta mostrar que a falta dessa percepção pode levar à falência pequenas, médias e grandes empresas, de qualquer segmento, em qualquer lugar do mundo.  

Mesmo uma empresa tradicionalmente reconhecida pela qualidade e unicidade de seu produto ou serviço, mais cedo ou mais tarde será desafiada a inovar, se quiser sobreviver no mercado altamente competitivo e voraz. Esse mercado, cada dia mais globalizante, não perdoa aquelas empresas que se acomodam diante da falta de criatividade e alienação diante das inovações tecnológicas em produtos e serviços.

A fictícia fábrica de sapatos Price, reconhecida por fazer sapatos que duram a vida inteira, de repente se vê diante de uma nova realidade mercadológica: produzir sapatos mais baratos, que não duram mais que um ano, para competir com concorrentes de outros países, que oferecem calçados a preços mais baixos, porém com menor qualidade. Esse é o “problema”. Um excelente sapato, de marca tradicional, feito à mão e que tem um controle de qualidade que garante sua alta durabilidade dificilmente conseguirá ser produzido a um preço competitivo, frente a marcas novas e importadas, porém menos duráveis e bem mais baratas. 

Quando o valor agregado (custo-benefício) de um produto ou serviço de determinada empresa é desproporcional ao dos seus concorrentes, surge, então, um empecilho para sua efetiva comercialização. Tomando-se como exemplo um sapato de couro, faremos uma equação matemática para aferirmos o seu real valor de venda para o consumidor final. Basta somar o custo e o benefício. O cálculo é simples: custo é o investimento empregado na fabricação do produto, somando-se desde o gasto em energia elétrica, matérias primas, mão de obra qualificada e impostos, por exemplo. Tudo isso somado gera um custo de produção do produto, que será somado à margem de lucro do fabricante. Já o benefício é a soma de valores importantes atribuídos ao produto – no caso a durabilidade, a confiança e tradição da marca, o conforto, a exclusividade e status que a marca representa. Juntos, o fator custo-benefício ditará o preço final que esse produto terá no mercado, atribuindo-lhe um valor agregado, que pode ser superior ou inferior a outras marcas. Porém, nem todos os consumidores avaliam essa relação de valor agregado de um produto, e levam em conta tão somente o menor preço, em detrimento da qualidade. 

Em “Kinky Boots” percebemos, ainda, que se uma empresa não concorda em praticar as mesmas regras de seus concorrentes, abdicando da valoração de seus produtos e preceitos que defende como fundamentais – como a qualidade final de seus produtos, por exemplo – então é melhor diversificar, ou até mesmo mudar sua linha de produção. Para tanto, a busca por novos nichos de mercado e a criação de novos produtos exclusivos e específicos para esses possíveis novos consumidores é fundamental.

É necessária, após a descoberta de novos mercados, a percepção das necessidades desse universo consumidor, identificando e despertando desejos de compra.

Se não o fizer, com certeza tal empresa estará fadada ao fracasso.

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Esse texto foi originalmente construído para a matéria Psicologia do Consumidor, do 6º semestre do curso de Jornalismo, na Universidade Paulista, Campus Marquês.

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O triste e intransigente legado do governo Lula

In Crônica on setembro 23, 2008 by Tancredo Jr Marcado: , , ,

O triste e intransigente legado do governo Lula

Por Tancredo Junior – 21/09/08

 

Está em trâmite, e aguardando parecer final no Supremo Tribunal Federal, uma resolução que pretende acabar de vez com a exigência do diploma de nível superior para o exercício da profissão de jornalista. Sindicatos e associações representativas dos jornalistas em todo o País pressionam os ministros do STF para que votem contra essa medida predatória e injusta com os profissionais que cursaram uma faculdade, e aqueles que estão se formando ou que iniciaram o curso recentemente.  

Não precisa ser nenhum gênio para entender que o lobby das empresas de comunicação é forte, pois para elas é mais que interessante a desregulamentação do setor. Não havendo a necessidade do diploma, qualquer Zé Mané pode reivindicar o título de jornalista e trabalhar para ganhar qualquer merreca. Com isso, a qualidade do jornalismo nacional passaria a ficar duvidosa. Se os estagiários de jornalismo já são explorados hoje, recebendo salários vergonhosos e obrigados a fazer de tudo, imaginem sem a necessidade do diploma.

Esse projeto conta com a passividade do governo federal e do próprio Ministério da Educação, que provavelmente cedem de joelhos diante do poder das grandes corporações.

 

Esse governo Lula é mesmo incrível. Basta sair uma pesquisa de opinião pública que confirme o aumento da popularidade do presidente da República, e pronto. Eles acham que podem fazer passar no congresso qualquer projeto de lei que agrida os direitos dos cidadãos, previstos até na Constituição Federal.

Agora, como se não bastasse, é a vez do Ministério da Justiça, que tenta emplacar, meio que à surdina, um projeto de Lei que tem como objetivo amordaçar de vez os jornalistas e empresas jornalísticas, ou seja, jornais, revistas, emissoras de rádio e TV.

Pelo projeto de Lei apresentado pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, tanto jornalistas quanto empresas do setor estariam proibidos de divulgar o conteúdo de conversas gravadas por meio de escutas telefônicas.

Quem pisar na bola e divulgar o conteúdo das gravações pode ser punido penalmente, com pena de prisão.

Pelo menos nessa briga jornalistas e empresários parecem dar as mãos. Afinal, ninguém quer ver o sol nascer quadrado.

 

Esse PL é uma afronta desmedida, capciosa, perniciosa e inconstitucional à liberdade de imprensa. Fere a própria Lei de Imprensa, que já prevê sanções específicas para profissionais e empresas jornalísticas. Seria uma nova lei da mordaça.

Parece que os petistas esqueceram do período de obscuridade que vivemos durante a ditadura militar. Querem fazer pior que os generais, que com toda truculência e desrespeito aos direitos de liberdade de expressão, promulgaram a Lei de Imprensa em pleno regime ditatorial. O PT quer entrar para a história. O próprio Lula saiu-se com mais uma de suas célebres pérolas, quando disse que qualquer outro presidente trará sobre seus ombros a obrigação de fazer mais do que ele; se não, terá feito menos que um simples metalúrgico. Triste legado para o próximo presidente. Ser mais intransigente que o atual governo, impossível. Nem quero mais ser candidato.

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Quem tem medo de grampo?

In Crônica on setembro 23, 2008 by Tancredo Jr Marcado: , , , ,

Quem tem medo de grampo?

Por Tancredo Junior – 13/09/08

 

O recente episódio envolvendo as escutas telefônicas de diálogos entre o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, e o senador Demóstenes Torres – supostamente feitas pela ABIN – causou um mal estar generalizado em Brasília, principalmente entre os congressistas, políticos do alto escalão, magistrados e ministros de Estado. Pelo jeito, a ferida ainda está aberta. Até mesmo o presidente Lula – que agora teme pela segurança de sua família – acha que seus filhos estão sendo “investigados”, não se sabe por quem.

O temor é de que a intimidade alheia esteja em perigo evidente, e as conversas telefônicas deixem de ser privadas – se é que já não é assim, há tempos.

Se, de fato, algum “araponga” particular ou vinculado a uma instituição governamental fez os grampos, resta saber a mando e interesse de quem.

O evocativo do direito à privacidade embasa-se na garantia constitucional de que esse tipo de procedimento – o grampo telefônico – só pode ser realizado mediante autorização judicial, quando solicitado pelo órgão responsável pela investigação – no caso a polícia, e quando há indícios evidentes contra o investigado.

Se não forem obedecidas essas regras básicas, comete-se um grave incidente de segurança, punível com pena de reclusão.

 

Preocupação ou exagero?

Apesar de concordar com o ministro Gilmar Mendes, que defende a apuração veemente do caso, compreendo, porém, que quando se afirma que “qualquer cidadão está sujeito a ter suas conversas telefônicas gravadas e monitoradas ilegalmente”, me pergunto se realmente tenho alguma coisa a temer em meus diálogos no celular ou telefone fixo no dia-a-dia.

É, na verdade, um certo exagero afirmar que todos podemos, um dia, ser vítimas desse tipo de violação. Ora, o que podemos temer, eu e você, caro leitor, simples mortais, viris trabalhadores desse Brasil, que labutam a lida diária e honestamente? Nada!

É sabido que pessoas que lidam no jogo do poder político podem estar sujeitos a investigações, legais ou não, devido aos cargos e influência que exercem. Não obstante, sabemos, por exemplo, que a espionagem industrial existe, de fato, e utiliza-se de meios parecidos ou mais complexos. Isso já aconteceu antes. Lembram-se do caso de espionagem envolvendo a Kroll? E o episódio da quebra do sigilo bancário do caseiro, que derrubou o ministro Palocci?

Suspeita-se que tais práticas são heranças da ditadura, que utilizava os serviços do antigo SNI, sem escrúpulos ou regras, para grampear conversas de políticos, empresários, juízes e líderes de movimentos pró-democracia.

Esse é mais um fato isolado, ligado aos meandros do poder. Não há o menor nexo essa temeridade nacional.

 

Quem não deve não teme

Se meu telefone fosse grampeado, provavelmente não aconteceria esse estardalhaço todo. O caso passaria batido, provavelmente.

Mas essa repercussão toda é por causa de gente importante, é obvio. Logo se faz necessário descobrir os culpados com certa urgência.

Claro que não posso concordar e achar normal que pessoas – influentes ou não – tenham seus telefones grampeados. Isso é crime e precisa ser punido. Mas daí achar que, enquanto cidadão comum, um dia eu venha a ser vítima desse tipo de bisbilhotice, é uma neurose absurda. Sem falar que as chances disso acontecer são de uma em 170 milhões. Seria a mesma probabilidade de ganhar, sozinho, na megasena acumulada. Entre as duas, prefiro apostar na segunda, apesar de não ser adepto de jogos de azar.

O velho ditado popular “quem não deve, não teme”, é a única garantia que temos diante de uma possível investigação, clandestina ou legal. Se não tenho nada a esconder, então não preciso ter medo de falar ao telefone com meus amigos, colegas, parentes ou clientes.

Não estou fazendo apologia à espionagem, muito pelo contrário. Reafirmo veementemente que tal prática feita de forma ilegal precisa ser denunciada e expurgada.

O que não se pode é permitir que uma aura de insegurança institucional paire no ar, criando a sensação de que há um “poder paralelo” ao Estado democrático e de direito, espionando os cidadãos acima de qualquer suspeita, transformando-os em possíveis “inimigos do Estado”. É isso o que querem nos fazer crer alguns membros do poder público, quando concedem entrevistas insinuando que há um certo “grupo dos treze”, composto por sabe-se lá quem, formado com o objetivo de chantegear gente importante. É a nova teoria da conspiração “made in Brazil”. Mas teorias precisam ser provadas.

 

A imprensa requenta pautas de gaveta

E a imprensa, que requenta pautas de gaveta, insinuando o total descontrole do Governo sobre instituições que lhe são subordinadas, divulga fatos sem nem mesmo fazer a checagem das fontes. Dessa forma, corre-se o risco de transformar a Polícia Federal – pelo menos até agora tida como um órgão exemplar – em uma rede de intrigas a serviço de grupos paralelos, que poderia estar envolvida no episódio do grampo. Aliás, matérias de citam até o suposto motivo: o próprio Gilmar Mendes, que jogou um balde de água fria na PF, quando limitou o uso das algemas, depois do episódio da prisão do banqueiro Daniel Dantas. “Pra quê algemar um cidadão se ele não oferece perigo?”. A sentença do ministro deixou subentendido que “cidadão” é apenas gente de grana, esse pessoal envolvido com desvio de dinheiro público, aqueles crimes do “colarinho branco”. Por isso, a cúpula da PF e da ABIN teriam se unido para pegar o magistrado no pulo. “Não há melhor motivo pra grampear o ministro”, denuncia o lead da imprensa marrom, que investiga os fatos, julga e condena antecipadamente.

 

Roteiro de filme de Hollywood

Bem verdade que se ao invés de Dantas fosse preso um ladrãozinho pé-de-chinelo, que rouba um pacote de bolacha no supermercado, este poderia ter sido exposto à execração pública e midiática, algemado e descamisado, quase nu e só de cuecas, sem o menor pudor, mas sem a interferência do STF em seu favor. Para Mendes, sua decisão foi tomada pensando em “resguardar os direitos de todos os cidadãos brasileiros”. Será? Tenho minhas dúvidas.

Essa história do grampo do ministro e do senador é um caso complicado e cheio de mistério que dificilmente se chegará aos verdadeiros culpados. Poderá até surgir um bode expiatório, um “boi de piranha”, só pra acalmar os ânimos. Parece até roteiro de filme hollywoodiano: temos um elenco de primeira, uma trama emocionante e um final que promete ser surpreendente. A diferença é que nos filmes de Hollywood o mocinho sempre vence. Já nesse episódio “brasiliwoodiano” pode ser que no final o mocinho seja o bandido.

Ou será o contrário? Sathiagraha já diz tudo.

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O petróleo é nosso! Será?

In Artigo on setembro 23, 2008 by Tancredo Jr Marcado: , , ,

O petróleo é nosso! Será?

Por Tancredo Junior – 21/09/08

 

 

Não está muito bem clara essa idéia do presidente Lula de criar uma nova empresa estatal para extrair o petróleo das novas bacias em águas profundas, no chamado pré-sal, descobertas pela Petrobras, com investimentos feitos pela própria empresa. A Petrobras é uma empresa mista, de capital aberto, com ações negociadas nas bolsas do mundo todo. O governo federal é dono da maior parte das ações e por isso tem o direito de controlá-la, nomeando presidentes e diretores. Os acionistas minoritários – pessoas físicas e grandes investidores de vários países – não tem direito a voto nas decisões da estatal. Apenas apostam que os papéis da companhia obterão valorização e rendimentos em médio e longo prazo.

Segundo especialistas, com as descobertas recentes os dividendos (os lucros) da empresa tendem a aumentar, uma vez que detendo o direito de explorar o óleo escondido há mais de seis mil metros de profundidade a transformaria em uma das mais rentáveis petrolíferas do mundo.

Todo mundo ganharia: governo e acionistas.

 

Mas pode não ser assim. Se vingar essa nova obsessão do governo petista, a Petrobras seria excluída da parada, e perderia os direitos de exclusividade sobre os poços recém descobertos.

Como ficam aqueles trabalhadores brasileiros que, incentivados pelo próprio governo federal, investiram seu FGTS na compra de ações da estatal, acreditando em seu crescimento no cenário mundial? A resposta é nebulosa, mas é quase unânime: poderão ter seus dividendos surrupiados e ver suas ações desvalorizadas, de repente.

Alegando que “o petróleo é nosso”, e que os lucros oriundos das novas reservas recém descobertas devem ser geridos exclusivamente pelo Estado e aplicados na geração de renda do povo brasileiro, o governo encampa uma nova campanha popularesca que engana os mais ingênuos.

 

Há quem diga que se a Petrobrás deixasse de ser dirigida pelo Estado seria bem maior e competitiva do que é. O governo manda e desmanda na empresa. Loteia cargos entre os aliados, e distribui empregos estratégicos para apadrinhados políticos sem conhecimento técnico.

Aliás, há uma coisa realmente boa que o governo faria: impedir que funções técnicas e administrativas na empresa sejam exercidas por gente sem qualificação, apenas por servidores públicos concursados e treinados.

Seria o primeiro passo para a moralização. Ao invés de criar uma nova empresa, basta deixar a atual nas mãos dos técnicos e diretores de carreira da própria Petrobras, gente treinada e capacitada que realmente entende do assunto. Assim, o petróleo continuaria sendo do Brasil, e os lucros gerados seriam satisfatórios para a nação e para os investidores.

O resto é puro populismo barato de um governo que se pauta pelo fisiologismo desenfreado.

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Pagando bem, que mal tem?

In Artigo on setembro 11, 2008 by Tancredo Jr Marcado: , , , ,

Navegando na Internet, a gente acaba lendo cada coisa louca e engraçada, muitas sem nexo, outras até esdrúxulas, pra falar a verdade. No “Ponto de Vista” – um blog locado no WordPress, li sobre uma garota que lançou uma proposta inusitada – pelo menos pra mim – que é justamente vender a sua virgindade em um leilão na web. A idealizadora da ideia é uma jovem norte-americana de 22 anos, Natalie Dylan, moradora de San Diego, Califórnia.

Em entrevista ao tablóide inglês “Daily Telegraph”, Natalie diz que fará esse leilão simplesmente com o objetivo de arranjar uma grana para custear seus estudos na faculdade. E se a moda pega? Imaginem que coisa maluca! Colocar à venda a sua suposta primeira relação sexual. E não importa com quem, desde que dê o melhor lance. É aquele velho ditado: “pagando bem, que mal tem?”.

Esse episódio me fez lembrar um polêmico filme, “Proposta Indecente”, com Demi Moore, Robert Redford e Woody Harrelson. A história gira em torno de uma bela mulher (Moore) que recebe uma proposta milionária para manter relações extraconjugais com um bilionário (Redford). E o marido dela (Harrelson) fica em uma sinuca de bico – o casal está quebrado, falido, precisa da grana – mas ele vive um dilema terrível, que é a péssima ideia de imaginar sua esposa com outro homem, mesmo que isso lhe traga a solução para os problemas financeiros.

O filme é uma ficção, imaginação de fatos que supostamente poderiam ou não acontecer na vida real. Já o leilão virtual que a Natalie está fazendo é realidade, mesmo.

Sempre ouvia dos meus pais e avós na minha infância e adolescência que o mundo estava mergulhado em um caos moral. Mas na minha época não se ouvia falar esse tipo de maluquice. Há uma neurose comportamental reinante no mundo de hoje. A liberalidade sexual perverteu de vez a moral e os bons costumes.

A banalização da vida, em todos os aspectos, está cada dia ficando mais generalizada. Em todas as áreas. Não é só na questão da promiscuidade sexual, amplamente divulgada e vendida pela mídia televisiva, que exibe em pleno horário nobre, em canais de TV aberta, cenas de nudez e sexo quase que explícito. As novelas que o digam.

Os liberais irão dizer que não há nenhum problema em uma garota vender seu corpo em um leilão. As prostitutas fazem a mesma coisa – oferecem sexo para qualquer pagante, por um valor fixo. Esse é o problema, acharmos tudo naturalmente correto, aceitável e tolerável no mundo globalizante de hoje. A questão, de fato, é saber até que ponto a sociedade civilizada poderá aceitar e conviver com essas práticas modernas e achá-las normais.

Quando me perguntam se eu e minha esposa pretendemos ter mais um filho, a resposta é taxativa: Não. Sabe por quê? Porque está ficando insustentável educar uma criança atualmente. Com tanta diversidade de pensamentos, práticas, condutas, valores e crenças difundidas aos quatro ventos, já não sabemos se realmente vale a pena ver nossos filhos crescendo em um mundo tão maluco, promíscuo e confuso.

Resta-nos, enquanto seres humanos dotados de consciência e poder de reflexão, ainda uma chance de colocarmos o raciocínio em funcionamento e analisarmos, profundamente, se queremos continuar caminhando para um futuro coerente, ético e moralmente aceitável, ou se preferimos fechar os olhos e achar que está tudo bem, que cada um faz da sua vida o que quiser.

Se não refletirmos e repensarmos as nossas práticas e condutas morais, corremos sério risco de amanhã lermos na Internet a notícia de que alguém vende, não apenas seu corpo, sob o pretexto de ganhar grana para pagar a faculdade, mas que também oferece, por um bom preço, uma noite de sexo com sua filha adolescente e virgem, por exemplo, ou quem sabe com seu cônjuge. E os motivos não hão de faltar, serão muitos: pagar a
hipoteca da casa própria, fazer uma lipoescultura na barriga, ou talvez realizar aquela tão sonhada viagem à Disney.

É esperar pra ver. Estamos caminhando a passos largos, rumo a um mundo sombrio e medieval, onde não haverá limites para os descalabros morais e éticos, em que a permissividade e promiscuidade reinarão tranquilamente, de mãos dadas com a degradação dos valores e princípios que deveriam permear uma sociedade de seres humanos.

Por Tancredo Junior, jornalista e radialista.